#MemóriasdasLagoas: Ocupação colonial inicial
20 de junho de 2026Após séculos de ocupação indígena integrada às lagoas, rios, manguezais e restingas, a Baixada de Jacarepaguá passou, a partir do fim do século XVI, por uma profunda reorganização. Com a colonização portuguesa, a terra passou a ser tratada como propriedade e fonte de produção, marcando uma ruptura nas formas de ocupação do território.
Engenhos, sesmarias e o início da transformação do território
Esse processo teve como base o sistema de sesmarias, utilizado pela Coroa Portuguesa para distribuir terras e estimular a produção agrícola. Em Jacarepaguá, a carta de sesmaria concedida aos filhos de Salvador Correia de Sá, em 1594, marcou o início dessa reorganização.
A distribuição das terras impulsionou a implantação de engenhos de açúcar e fazendas. Segundo Maurício de Almeida Abreu, a Baixada de Jacarepaguá tornou-se uma importante área produtora da capitania do Rio de Janeiro, chegando a reunir 11 engenhos no final do século XVII. No século XVIII, a produção expandiu-se para gêneros como aguardente e farinha de mandioca, conforme pesquisa de Victor Luiz Alvares Oliveira.
A água foi essencial para esse modelo econômico, servindo tanto como via de circulação quanto para movimentar as moendas dos engenhos por meio de canaletas, aquedutos e rodas hidráulicas. Ao mesmo tempo, a expansão agrícola transformou a paisagem da planície costeira e lançou as bases das alterações ambientais que se intensificariam nos séculos seguintes.
A produção dos engenhos dependeu inicialmente da exploração indígena e, posteriormente, da escravização de africanos e seus descendentes. Pesquisas arqueológicas no Engenho do Camorim evidenciam essa presença, cuja memória permanece viva no Quilombo do Camorim, importante território de preservação da história e resistência da população negra.
Compreender esse período ajuda a entender que a história das lagoas também é marcada por sucessivas transformações na relação entre sociedade e natureza.
Hoje, o movimento Juntos Pela Vida das Lagoas atua na revitalização ambiental do Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá por meio de obras, monitoramento, educação e comunicação ambiental, contribuindo para a preservação desse patrimônio natural e cultural.
Referências bibliográficas
ABREU, Maurício de Almeida. Um quebra-cabeça (quase) resolvido: os engenhos da capitania do Rio de Janeiro, séculos XVI e XVII. Scripta Nova, 2006.
OLIVEIRA, Victor Luiz Alvares. A Zona Oeste colonial e os mapas de população de 1797: algumas considerações sobre lavradores partidistas e produção agrária de Jacarepaguá, Campo Grande e Guaratiba no século XVIII. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, n. 10, 2016.
ANDRADE, Inês El-Jaick. Ruínas do Antigo Engenho Novo no Núcleo Histórico Rodrigues Caldas. Revista de História da Arte e Arqueologia, n. 13.
PEIXOTO, Sílvia Alves; LIMA, Tania Andrade. Engenho do Camorim: Arqueologia de um espaço açucareiro no Rio de Janeiro seiscentista. Revista de Arqueologia, v. 33, n. 1, 2020.
RIOONWATCH. Quilombo do Camorim: uma história de preservação e resistência. Disponível em: https://rioonwatch.org.br/?p=20726