#MemóriasdasLagoas: os nomes que atravessaram séculos, a herança indígena do Complexo Lagunar
24 de março de 2026Você sabia que muitos nomes das lagoas, rios e bairros da Barra da Tijuca e da Baixada de Jacarepaguá guardam uma história que atravessa séculos? Muito antes da urbanização, essa região era habitada por povos indígenas de matriz tupi, grupos cujas línguas e culturas pertencem à família Tupi-Guarani, uma das mais difundidas no Brasil pré-colonial. Esses povos nomeavam os lugares, as plantas e os animais observando atentamente as características da natureza ao seu redor. Esses nomes, preservados até hoje, são como janelas para o passado, revelando a profunda conexão entre as pessoas e a paisagem natural. Vamos conhecer um pouco dessa herança indígena que ainda pulsa no nosso dia a dia?
Locais, lagoas e cursos d’água
• Jacarepaguá
(îakaré [jacaré] + upá [lagoa] + kûá [lugar, enseada])
Significa “lugar da lagoa dos jacarés” ou “enseada dos jacarés”. Esse nome nos remete à época em que jacarés habitavam abundantemente as áreas alagadas da região, antes da expansão urbana.
• Lagoa de Marapendi
(pará [mar] + peb [raso] + ’y [água, rio])
O nome indica as águas rasas próximas ao mar, ressaltando a ligação direta da lagoa com o ambiente costeiro.
• Lagoa da Tijuca
(tyî [água] + uk [estagnada, parada])
Refere-se à “água parada” ou “charco”, caracterizando as áreas pantanosas que existiam antes da urbanização.
• Camorim
(kamuri [robalo] + sufixo diminutivo -im)
Significa “robalo pequeno”, evocando a importância da pesca e a presença desse peixe no sistema lagunar.
• Taquara
(ta’kûara [bambu, cana fina])
Nome que remete à abundância de taquaras na Mata Atlântica, plantas utilizadas tradicionalmente para construções e utensílios.
• Curicica
(kurí [pinhão] + sika [cair])
“Onde caem os pinhões”, uma referência às áreas ricas em árvores produtoras de sementes essenciais para a alimentação indígena.
• Itanhangá
(itá [pedra] + anhangá [espírito, entidade])
“Pedra do espírito” ou “pedra encantada”, um local marcado por crenças e histórias indígenas.
• Mucuíba
(muku’i / mukuí [tipo de palmeira ou árvore nativa] + yba [árvore / fruto])
“Local onde há abundância de uma palmeira ou árvore nativa”, indicando uma região com vegetação típica da espécie, reforçando a ligação entre nome e paisagem natural.
• Joatinga
(îuá / joá [espinho / ponta] + tinga [branco / claro])
“Espinho branco” ou “lugar claro e pontiagudo”, em referência à vegetação espinhosa da restinga e às formações rochosas claras e salientes da região costeira, descrevendo as características naturais antes da urbanização.Fauna
• Jacaré (îakaré)
Essencial na fauna local, o jacaré era frequente nos rios e lagoas, simbolizando a riqueza dos ecossistemas aquáticos.
• Capivara (kapii wára)
Mamífero associado a áreas úmidas e margens de rios.
• Siri (sirí)
Crustáceo típico de manguezais e regiões estuarinas.
• Urubu (uru’wu)
Ave comum em áreas abertas e zonas costeiras.
• Tatu (tatu’i)
Mamífero escavador presente em áreas de vegetação nativa.
• Jibóia (iuy mbóia)
Serpente constritora de grande porte.
• Tucano (tu kana / tu kanu)
Ave de bico grande e colorido.
• Paca (paka)
Mamífero roedor de médio porte, típico de florestas e áreas próximas a rios e lagoas.
• Cutia (akutí)
Roedor comum na Mata Atlântica, importante dispersor de sementes.
Flora
• Mangue
Termo associado às áreas alagadas costeiras, ligado à vegetação aquática.
• Aguapé ('y [água] + guapé [caminho/piso])
Planta aquática que flutua em grandes grupos, formando tapetes vegetais que parecem caminhos sobre a água. Exemplo: Gigoga ou Gigóia, muito comum nas lagoas.
• Mandioca (mandióka)
Base alimentar dos povos indígenas.
• Pitanga (pytánga)
Fruto nativo da Mata Atlântica.
• Jenipapo (iandypáwa)
Fruto usado para alimentação e tintura tradicionalmente.
• Buriti (mbïrï’tï)
Palmeira típica de áreas úmidas.
• Capim (kapíi)
Termo genérico para gramíneas.
• Caju (aka’yu)
Fruto nativo da costa brasileira, amplamente usado na alimentação indígena e associado a áreas litorâneas.
• Aroeira (aroeira / aru’ẽra)
Árvore nativa de uso medicinal e madeireiro, comum em restingas e áreas de transição.
• Ingá (ingá [árvore leguminosa])
Árvore leguminosa típica de matas ciliares, com frutos apreciados por humanos e animais.
• Ipê (ypê [árvore])
Árvore de madeira resistente e flores vistosas, símbolo da flora brasileira, presente em diferentes formações da Mata Atlântica.
• Jatobá (îatã [duro] + obá [fruto])
Árvore com casca resistente e fruto duro, comum em florestas tropicais.
• Sapucaia (sapuká’ya [árvore de grande porte])
Árvore de grande porte, conhecida por seus frutos em forma de cápsula, presente em áreas de Mata Atlântica e restingas.
• Jequitibá (îe’ẽ [grande] + kïti [tronco/árvore] + ibá [árvore])
Árvore de grande tronco.
Memória viva da paisagem
Você já parou para pensar que os nomes indígenas preservados no Complexo Lagunar de Jacarepaguá são muito mais do que palavras antigas? Eles carregam descrições precisas da paisagem, da biodiversidade e da relação profunda entre os povos originários e o meio natural.
Valorizar essa herança é reconhecer que a história das lagoas começa muito antes da chegada da cidade. A preservação desses ecossistemas depende, também, do respeito à memória que ainda ecoa em seus nomes.
A série #MemóriasdasLagoas reúne histórias, curiosidades e registros que ajudam a compreender o Complexo Lagunar da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá desde suas origens pré-coloniais até os dias atuais.
Essa iniciativa faz parte do movimento Juntos Pela Vida das Lagoas, liderado pela Iguá Rio e executado pelas empresas Arcadis, Dratec Engenharia, Ventura Ambiental e Instituto Manglares. Juntas, essas instituições atuam na recuperação ambiental do Complexo Lagunar, integrando esforços para garantir a vida e a memória deste patrimônio natural e cultural.
Para aprofundar seu conhecimento
Se você se interessou pela origem dos nomes do nosso Complexo Lagunar e quer mergulhar ainda mais na língua e cultura tupi, selecionamos alguns recursos fundamentais:
Aprenda com Especialistas
• Videoaulas da USP: O professor Eduardo Navarro, uma das maiores autoridades no assunto, oferece um curso completo de Tupi Antigo no YouTube.
o Destaque: Assista à aula para entender como soavam esses nomes originalmente, https://www.youtube.com/watch?v=Mq-Wq18yqho
o Playlist Completa: Aulas de Tupi Antigo - USP, https://www.youtube.com/playlist?list=PLwEYbqqef9o_ytJs18R54nySwSaYUOcwk
• Portal Oficial da FFLCH-USP: No site tupi.fflch.usp.br, você encontra materiais didáticos e informações detalhadas sobre o Tupi Antigo e a Língua Geral (Nheengatu).
Dicionários e Pesquisa Histórica
• Dicionário de Tupi Antigo: Consulte a obra de Eduardo Navarro e outros vocabulários históricos em PDF através da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú, referência em línguas indígenas sul-americanas, http://www.etnolinguistica.org/
• Acervo da Biblioteca Nacional: Explore manuscritos e registros sonoros de expedições etnográficas pesquisando termos específicos na BNDigital, https://bndigital.bn.gov.br/
• Minuto IBGE: Ouça o áudio especial sobre Línguas Indígenas para entender a diversidade linguística do Brasil, https://www.ibge.gov.br/institucional/informativo/24033-minuto-ibge-linguas-indigenas.html
****Esta matéria tem colaboração e revisão do Cientista Social Breno Silva.****
*Imagens meramente ilustrativas, criadas com IA.