#MemóriasdasLagoas: Séculos XIX e início do XX
24 de julho de 2026Drenagens, obras hidráulicas e a tentativa de “domar” as lagoas
A série #MemóriasdasLagoas resgata diferentes períodos da história do Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá para mostrar como as relações entre sociedade e natureza transformaram esse território ao longo do tempo. Neste capítulo, o foco está nas obras hidráulicas e nas intervenções realizadas entre o século XIX e o início do século XX, período em que ganhou força a ideia de controlar as águas para favorecer a expansão urbana.
Ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o território do Complexo Lagunar da Barra e de Jacarepaguá passou por uma nova e profunda transformação. Se nos séculos anteriores a ocupação esteve ligada à produção agrícola, esse período marca o início de uma lógica de intervenção direta sobre a natureza, com obras voltadas à drenagem, ao saneamento e ao controle das águas. É o momento em que as lagoas deixam de ser vistas como sistemas naturais dinâmicos e passam a ser tratadas como problemas a serem corrigidos.
Essa mudança está diretamente relacionada ao avanço do pensamento higienista no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Durante o século XIX, áreas alagadas, manguezais e zonas lagunares passaram a ser associadas à insalubridade e à propagação de doenças como malária e febre amarela, então explicadas pela teoria dos miasmas. Nesse contexto, lagoas e brejos eram frequentemente classificados como focos de doenças e áreas improdutivas, o que justificava intervenções para sua drenagem e transformação.
Estudos sobre a história do saneamento no Rio de Janeiro mostram que essa visão orientou políticas públicas e projetos de engenharia ao longo do período imperial e republicano. A ideia central era substituir ambientes naturais considerados insalubres por territórios aptos à ocupação urbana, agrícola e à circulação.
Nesse cenário, começam a surgir as primeiras grandes obras hidráulicas na Baixada de Jacarepaguá. Relatórios técnicos do século XIX e início do XX registram intervenções como abertura de canais, retificação de cursos d’água e tentativas de drenagem de áreas alagadas. Essas obras buscavam acelerar o escoamento das águas, reduzir áreas inundáveis e controlar o regime hídrico da região.
A atuação de engenheiros sanitaristas foi central nesse processo. Influenciados por correntes europeias de engenharia e saúde pública, esses profissionais passaram a projetar soluções baseadas na canalização e na reorganização dos fluxos naturais. No início do século XX, com a consolidação das políticas urbanas no Rio de Janeiro, essas intervenções ganham escala e passam a integrar estratégias mais amplas de ordenamento territorial e expansão da cidade.
Segundo estudos sobre saneamento urbano no Brasil, esse período marca a transição de uma relação adaptativa com o meio ambiente para uma abordagem de controle e transformação. A retificação de rios alterou trajetórias naturais, reduzindo sua sinuosidade e aumentando a velocidade do fluxo. Já a abertura de canais conectou corpos hídricos e modificou o equilíbrio entre lagoas, rios e o mar.
Na Baixada de Jacarepaguá, essas ações configuraram as primeiras intervenções estruturais no sistema lagunar. Ainda que muitas delas fossem limitadas pela tecnologia da época, estabeleceram um precedente importante, a ideia de que o território poderia ser reorganizado por meio da engenharia.
Ao mesmo tempo, essas transformações tiveram efeitos ambientais significativos. A drenagem de áreas úmidas e a alteração dos fluxos naturais impactaram ecossistemas como manguezais e restingas, além de modificar a dinâmica hidrológica das lagoas. Parte dos desafios atuais, como assoreamento, dificuldade de circulação da água e desequilíbrios ecológicos, tem origem nesse histórico de intervenções acumuladas.
Essas intervenções também influenciaram a forma como a população passou a enxergar as lagoas. Ao serem tratadas por décadas como áreas a serem drenadas, canalizadas ou ocupadas, elas perderam parte de seu reconhecimento como ecossistemas vivos, favorecendo uma relação de menor cuidado com esses ambientes e contribuindo, ao longo do tempo, para práticas como o descarte inadequado de resíduos e a ocupação desordenada de suas margens.
Pesquisas desenvolvidas na COPPE/UFRJ e em programas de geografia e engenharia urbana indicam que muitas dessas obras não consideravam a complexidade ecológica dos sistemas lagunares. A lógica predominante era a de saneamento e ocupação, e não de conservação ambiental.
Compreender esse período é essencial para conectar passado e presente. As lagoas da Barra e de Jacarepaguá são territórios historicamente transformados por diferentes visões de uso e ocupação. As intervenções realizadas entre os séculos XIX e início do XX ajudam a explicar a configuração atual do sistema lagunar e os desafios enfrentados hoje.
O movimento Juntos Pela Vida das Lagoas atua atualmente na revitalização ambiental do Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá, promovendo melhorias na circulação hídrica, na oxigenação e na qualidade ambiental das lagoas, além de desenvolver ações de monitoramento, educação e comunicação ambiental, valorizando esse patrimônio natural e cultural.
Imagem meramente ilustrativa, criada com IA.
Referências bibliográficas
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