#MemóriasdasLagoas: Antes da cidade, o território. A ocupação indígena no Complexo Lagunar
28 de fevereiro de 2026Muito antes da urbanização da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá, o Complexo Lagunar já era território vivido, manejado e significado por povos indígenas. A paisagem formada por lagoas, rios, manguezais, restingas e matas não era apenas um cenário natural, mas um espaço de moradia, alimentação, circulação e espiritualidade para esses grupos, que ocuparam a região por milhares de anos.
Ocupação humana e sambaquis: vestígios arqueológicos
Pesquisas arqueológicas realizadas no litoral do Rio de Janeiro indicam que a ocupação humana na área remonta a pelo menos 4 mil anos, com registros associados a diferentes tradições culturais indígenas. Entre os vestígios mais importantes estão os sambaquis, grandes montes formados pelo acúmulo de conchas, restos de peixes, ossos, artefatos líticos e sepultamentos humanos encontrados em áreas próximas a lagoas, canais e zonas costeiras. Esses sítios arqueológicos são fundamentais para entender a longa história de ocupação e manejo do território.
Os sambaquis identificados na Baixada de Jacarepaguá e em regiões próximas revelam que os primeiros habitantes mantinham uma relação estreita com os ambientes lagunares e estuarinos. Esses povos eram especialistas na exploração de recursos aquáticos, como peixes, moluscos e crustáceos, além da coleta de frutos e do uso de plantas nativas para alimentação e produção de utensílios.
Estudos conduzidos por arqueólogos vinculados ao Museu Nacional/UFRJ e ao IPHAN demonstram que esses grupos possuíam conhecimento profundo da dinâmica das marés, das lagoas e dos ciclos naturais, manejando o território de forma integrada ao ambiente. Os sambaquis não eram apenas locais de descarte, mas também espaços de habitação, rituais e memória coletiva.
Povos Tupi e a paisagem nomeada
A partir de aproximadamente mil anos antes do contato europeu, a região passou a ser ocupada por povos de matriz tupi, especialmente grupos relacionados aos Tupinambá, também conhecidos como Tamoios na costa sudeste. Esses povos deixaram marcas profundas na paisagem cultural, muitas delas preservadas até hoje nos nomes de bairros, lagoas, rios, plantas e animais, como veremos na segunda publicação da série #Memóriasdaslagoas.
Os indígenas tupis ocupavam áreas próximas às lagoas e aos cursos d’água, onde construíam aldeias, pescavam, cultivavam mandioca, milho e outros alimentos. Eles também utilizavam o mangue e a restinga como fontes de matéria-prima para fabricação de utensílios, habitações e canoas. A circulação entre lagoas, rios e mar fazia parte do cotidiano, conectando diferentes territórios e aldeias, demonstrando um sistema territorial integrado e dinâmico.
Um território vivo e interligado
Para os povos indígenas, o Complexo Lagunar não era um espaço fragmentado, mas um sistema contínuo, onde água, terra, fauna e flora formavam um todo inseparável. Lagoas e canais, como Tijuca, Jacarepaguá, Camorim e Marapendi, funcionavam como verdadeiras vias naturais, fundamentais para a alimentação, o deslocamento e a organização social.
Essa relação integrada com o ambiente é confirmada tanto pelos registros arqueológicos quanto pela etimologia dos nomes indígenas, que descrevem características precisas da paisagem, da biodiversidade e do uso do território.
Memória que resiste no território
A ocupação indígena pré-colonial do Complexo Lagunar de Jacarepaguá revela que a história dessas lagoas começa muito antes da cidade. Reconhecer essa presença é valorizar o conhecimento ancestral que compreendia a água como elemento central da vida e do equilíbrio ambiental.
A série #MemóriasdasLagoas resgata essas histórias para ampliar o olhar sobre o território, conectando passado e presente. Entender quem viveu aqui antes é também um passo fundamental para refletir sobre o futuro das lagoas e sobre a importância de sua preservação.
A iniciativa integra o movimento Juntos Pela Vida das Lagoas, liderado pela Iguá Rio, que atua na recuperação ambiental do Complexo Lagunar por meio de obras, monitoramento, educação e comunicação ambiental, valorizando esse patrimônio natural e cultural.
Referências:
- ALMEIDA, Ana Paula; SANTOS, João Carlos. Topônimos indígenas e território: uma leitura etnoecológica. Revista de Estudos Linguísticos, v. 15, n. 3, 2017, p. 289-310.
- ROCHA, Miryam; GONÇALVES, Maria Cecília. Sambaquis do litoral do Rio de Janeiro: arqueologia e história indígena. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.
- SILVA, Marina de Fátima. Entre lagunas e matas: os Tupinambás e o Complexo Lagunar de Jacarepaguá. Revista de Antropologia, v. 61, n. 2, 2018, p. 123-146.
- PIMENTEL, Sérgio. Os sambaquis e a ocupação indígena no litoral brasileiro. São Paulo: UNESP, 2012.
****Esta matéria tem colaboração e revisão do Cientista Social Breno Silva.****
*Imagens meramente ilustrativas, criadas com IA.