#MemóriasdasLagoas: Século XX: Urbanização acelerada, ocupação desordenada e degradação ambiental
31 de agosto de 2026Ao longo da segunda metade do século XX, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980, a região do Complexo Lagunar da Barra e de Jacarepaguá passou por uma intensa transformação, tornando-se um dos principais vetores de expansão urbana do Rio de Janeiro. Nesse período, a ocupação progressiva da paisagem, impulsionada por políticas de expansão territorial e pelo aumento populacional, aprofundou o rompimento da relação entre cidade e natureza.
O Plano Piloto da Barra da Tijuca, elaborado por Lúcio Costa em 1969, teve papel decisivo nesse processo. Como parte do projeto de expansão horizontal, foram realizados extensos aterros sobre áreas naturais, incluindo margens de lagoas, brejos e zonas de manguezal. A construção de vias como a Avenida das Américas e a Linha Amarela, além da abertura de canais e obras de drenagem, modificou significativamente a hidrologia da região. Essas intervenções reduziram áreas alagadas, alteraram fluxos naturais e fragmentaram o sistema lagunar.
Além disso, tal ocupação urbana ocorreu de forma desigual, combinando grandes empreendimentos estruturados com a expansão de ocupações informais, muitas vezes sem infraestrutura adequada de saneamento básico. Segundo estudos da Fundação Oswaldo Cruz e da UFRJ, tamanho crescimento sem o correspondente avanço dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto contribuiu diretamente para o lançamento de esgoto in natura nas lagoas, elevando a carga orgânica, reduzindo a oxigenação da água e comprometendo a vida aquática.
Neste cenário, a perda de biodiversidade foi uma das consequências mais visíveis dessa transformação. Ambientes fundamentais como manguezais e restingas foram reduzidos ou suprimidos, afetando espécies que dependem desses ecossistemas para alimentação, reprodução e abrigo. A fragmentação do sistema lagunar também dificultou a circulação da água, agravando processos como o assoreamento e a eutrofização.
Compreender o século XX é fundamental para entender o presente. A configuração atual das lagoas, seus problemas ambientais e a necessidade de recuperação estão diretamente ligados às escolhas de formato de ocupação e desenvolvimento tomadas nesse período.
A série #MemóriasdasLagoas busca resgatar essas camadas de tempo para ampliar o olhar sobre o território. Ao revisitar o processo de urbanização e seus impactos, a série evidencia como a relação entre cidade e natureza foi sendo transformada ao longo do tempo.
O movimento Juntos Pela Vida das Lagoas atua hoje na revitalização ambiental do Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá, promovendo melhorias na circulação hídrica, na qualidade da água e na recomposição de ecossistemas, além de desenvolver ações de monitoramento, educação e comunicação ambiental, valorizando esse patrimônio natural e cultural.
Referências bibliográficas
IBGE. Urbanização brasileira e expansão urbana no Rio de Janeiro. Disponível em:
https://www.ibge.gov.br
COSTA, Lúcio. Plano Piloto para a Barra da Tijuca, 1969. Disponível em:
http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/152976/DLFE-220205.pdf
PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO. Plano Diretor do Município do Rio de Janeiro. Disponível em:
https://www.rio.rj.gov.br/web/smu/plano-diretor
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Estudos sobre saúde ambiental e saneamento urbano. Disponível em:
https://portal.fiocruz.br
UFRJ. Estudos sobre qualidade da água e impactos da urbanização em sistemas lagunares. Disponível em:
https://www.ufrj.br
RIO-ÁGUAS. Relatórios técnicos sobre drenagem e sistema lagunar da Barra e Jacarepaguá. Disponível em:
http://www.rio.rj.gov.br/web/rioaguas
Fotos: Agência O Globo / Arquivo